Quinta Ecológica da Moita (QEM) - Um espaço fora de portas para a Educação Ambiental

As origens da “Quinta da Moita”

Num Ecocampo de Férias da QEM, comentava o João em resposta ao desafio de fazermos uma caça ao tesouro: “Eu já conheço isto tudo, o meu avô mostrou-me! Nós já viemos cá, aos domingos de manhã!”. E não é invulgar encontrar pais e avós que me contam, por entre sorrisos, as suas aventuras de meninice quando vinham explorar a mata e o ribeiro da Quinta. E mostram satisfação por estarmos a recuperar este parimónio e por os seus filhos e netos poderem sentir o mesmo deslumbre e entusiasmo ao embrenhar-se na floresta.



A Quinta da Moita, como foi conhecida durante muito tempo e ainda assim apelidada pelos mais idosos, está localizada no lugar da Moita e actualmente repartida pelas freguesias de Oliveirinha e Sta. Joana, distando 6 km de Aveiro e atingindo uma área de 24 hectares, considerando a Mata da Moita, terrenos agrícolas e o Complexo Social da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro (SCMA).


Apoiando-nos nas investigações levadas a cabo pelo Dr Amaro Neves, antigo Provedor da SCMA, publicadas em “De “Quinta da Moita” (Oliveirinha) o Complexo Social da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro”, podemos afirmar que nesta mata foram encontrados vestígios de ocupação humana datados do paleolítico superior, nomeadamente uma pedra biface.


Supõe-se que, além da ainda existente “casa velha” ou “casa dos lagares” ou “casa dos caseiros”, haveria outra construção de melhor qualidade e mais cuidada, provavelmente uma casa senhorial, da qual resta um muro. Foram encontradas pedras xistosas, grês vernelho de Eirol e tijelo, nos muros e construções, sendo que este último era comum em construções urbanas da região circundante de Aveiro, nos Séc. XVI/XVII. Existe igualmente referência à Capela da Nossa Senhora da Piedade, que entretanto ruiu, com uma pia baptismal do Séc. XVI retirada atempadamente nos anos 40 do Séc. XX. Esta capela poderia estar ou não integrada na casa senhorial, mas vem atestar a importância que a quinta teria para a população local, tendo-lhe sido atribuída licença para celebrar missa em 1732. Nos registos consta que no Séc. XVII a Quinta da Moita pertenceu à famiília Ferraz Barreto, que possuia igualmente a área da Granja de Aveiro (actual Bairro da Beira-Mar). Os seus descendentes da família Ferraz Barreto Sacchetti passavam períodos de descanso na Quinta da Moita, durante o Séc. XIX, pelo que se pensa que melhoraram e reorganizaram este espaço.


No primeiro quartel do Séc. XX a Quinta seria ainda composta por casas de habitação, capela, abegoarias, celeiro, pomares, jardins, terras para lavrar, olivais, pinhais, matos, duas azenhas, água de rega e vinha. A “casa velha” veio ainda a ser brevemente recuperada para habitação, mas o elevado investimento travou as obras. No final do Séc. XX deu-se a possibilidade de serem instaladas indústrias no terreno, tendo sido efectuadas movimentações de terras com a destruição da eira, das ruínas da capela e do portal da entrada, onde supostamente existiriam pedras com o brasão da família que poderiam fornecer mais informação sobre a sua história. Mais tarde, por distanciamento da descendência, houve um grande crescimento do matagal e muitos materiais terão sido indevidamente levados.


Em 1980 a Quinta da Moita veio a ser adquirida pela SCMA, com o valor de 12.500 contos, com vista à construção de um Lar e Centro de Dia, sendo na altura constituída por uma casa com 4 divisões e 4 vãos, terra a milho, videiras, pinhal, 28 árvores de fruto e lameiro. O destino da Quinta foi sendo debatido ao longo dos anos 80 pela SCMA, existindo a vontade em recuperar os edifícios pelo seu interesse histórico e possível futura utilização como centro para a terceira idade. Durante estes anos verificaram-se deposições de lixos e crescimento dos matos, com consequente preocupação da população local, até que em 1993 foi possível reunir as condições para se dar início à construção do Complexo Social da SCMA, inaugurado oficialmente em 1998.



A nova “Quinta Ecológica da Moita”


Dada a vasta propriedade com linha de água e azenhas, era urgente dinamizar a Mata da Moita, pelo que a SCMA solicitou a elaboração de um o projeto de recuperação ambiental e dinamização da Educação Ambiental que viria a originar a “Quinta Ecológica da Moita”.


Sendo um projecto que envolvia a gestão da zona florestal, recuperação da “casa dos caseiros” para Centro de Educação Ambiental (CEA), azenhas e pocilgas ainda existentes na altura para que pudessem ser visitadas pelo público, o seu elevado custo dificultou as várias tentativas de avanço do projecto, tendo este ficado sempre no horizonte na esperança de o conseguir materializar.


Nove anos passados, em Junho de 2013, o encontro de três partes tornou possível este projecto: Joaquim Ramos Pinto, Presidente da Direcção Nacional da Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), professor e investigador procurava um espaço natural para desenvolver actividades da ASPEA; Ana Jervis Cunha, Eng. Zootécnica , Educadora Ambiental, apicultora e voluntária na ASPEA, procurava uma quinta onde desenvolver actividades e Bernardo Conde, agora técnico na SCMA, continuava esperançado em desenvolver o projecto. Em Julho de 2013 foi estabelecido um protocolo entre a ASPEA e a SCMA para dinamizar o projeto de Educação Ambiental Quinta Ecológica da Moita (QEM), com o objectivo de criar cidadãos ambientalmente mais conscientes num espaço natural de formação e lazer.



Um local único para lazer, educação e formação


A Mata da Moita torna-se especial por ser um local único rico em biodiversidade, com uma dimensão já considerável e tão próxima do centro da cidade de Aveiro.


Trata-se de uma floresta mista que se desenvolve nas margens da Ribeira do Carvão que cruza a propriedade, englobando vegetação tanto mediterrânica como atlântica, sendo de destacar pela sua abundância, importância ou raridade o carvalho-roble, sobreiro, medronheiro, loureiro, azevinho, pilriteiro, castanheiro, Eucalyptus robusta, carvalhiça, gilbardeira, feto-pente, entre outros.


Dentro da vegetação ribeirinha, abunda osalgueiro-negro, secundado por vimeiro, amieiro, choupo-branco, chorão, feto-real, entre outros.


Na avifauna, podemos ouvir e ver o pardal-comum, rola-turca, trepadeira-azul, trepadeira-comum, felosa-comum, chamariz, pisco-de-peito-ruivo, chapim-rabilongo, chapim-real, chapim-carvoeiro, toutinegra-de-barrete-preto, carriça, estrelinha-de-cabeça-listada, alvéola-cinzenta,garça-branca-pequena, garça-real, pombo-torcaz, melro, gralha-preta, milhafre-preto, búteo, coruja-das-torres, coruja-do-mato, entre outras aves diurnas e nocturnas, tanto residentes florestais como migratórias.


Já foram encontrados indícios de raposa, texugo, geneta, sacarrabos, fuinha, javali, coelho-bravo, ouriço-cacheiro, toupeira e diversos micromamíferos e morcegos. A anfibiofauna engloba a salamandra-de-pintas-amarelas, tritão-marmorado, tritão-de-ventre-laranja, tritão-palmado, sapo discoglosso, rã-verde e sapo-comum, sendo o tritão-de-ventre-laranja e o discoglosso considerados endemismos ibéricos. Nos répteis, já foram observados cobra-de-água, cobra-rateira, lagarto-de-água, que se trata de um endemismo ibérico, licranço e diversas espécies de lagartixas. Na linha de água foram avistados ruivacos, um endemismo lusitânico, e enguias, além do lagostim-vermelho-da-Louisiana, uma espécie exótica invasora.

Estão identificadas até ao momento 34 espécies de borboletas, sendo de realçar a borboleta-do-medronheiro. Dentro dos insectos, cujo inventário está a ser realizado, têm sido identificados igualmente libélulas, libelinhas, pirilampos e o lucanídeo vaca-loura, presente no carvalhal.


O inventário da fauna e flora conta com a colaboração de alunos de Biologia da Universidade de Aveiro (UA) e de voluntários da Unidade de Vida Selvagem da UA. A QEM tem recebido estagiários portugueses e estrangeiros que vêm desenvolver projetos académicos em contexto de trabalho. Os alunos e docentes responsáveis do Dep. de Comunicação e Arte da UA colaboraram com um projeto de comunicação para divulgação de anfíbios e répteis, “Herpetília”, cujo desenvolvimento pode ser consultado no facebook Herpetília e cujos objectos pedagógicos produzidos podem ser vistos na QEM, como forma de informar e reaproximar a população destes animais.


Os trabalhos de recuperação da mata e do edificado contam com a colaboração de funcionários da SCMA e do Voluntariado Ambiental da QEM, a decorrer às quartas e sextas à tarde. A QEM está aberta igualmente a doações de materiais, visto não ter fins lucrativos.


As atividades começaram por recuperar a antiga “casa dos caseiros” para Centro de Educação Ambiental, tarefa que continua em progresso. Nesta, ainda podemos encontrar vestígios dos antigos lagares e a pedra com a inscrição “1827”. Seguiu-se a recuperação da rede de charcos, o lago, o fontanário e o tanque, com o apoio do projeto Charcos com Vida e a monitorização e limpeza da linha de água através do apoio do Projecto Rios, construindo também um pequeno charco para benefício dos anfíbios. Foi retirada vegetação exótica invasora e substituída por vegetação ribeirinha e autóctone nas acções anuais do Florestar Portugal. A recuperação, manutenção e sinalização de trilhos está a ser efectuada, além da limpeza e gestão do Bambuzal, um espaço diferente bastante atrativo que tem sido limpo e encontra-se apetrechado com um estrado e bancada para a realização de actividades diversas, como ginástica, concertos, meditação e outras actividades de relaxamento.


Inaugurou-se em Novembro de 2013 a Sala Tyto alba (nome atribuído em homenagem à coruja-das-torres que lá habitava), já recuperada, com a exposição fotográfica sobre a Floresta Portuguesa de autoria da Dra Rosa Pinho e Dra Lísia Lopes da UA.


A casa-de-banho seca foi construída para o uso dos visitantes, dentro do ciclo de Construção Natural, permitindo ser um exemplo de como poupar água e fabricar camposto para a horta e floresta, além de ser acessível a utilizadores em cadeira-de-rodas. Pretende-se que num futuro próximo seja construído um edifício em construção natural, junto à casa, como espaço polivalente para receber outras actividades laboratoriais., além de um anfiteatro natural aproveitando o desnível do terreno.


O projeto integra uma incubadora socio-ambiental que visa dar a oportunidade a empreendedores de desenvolverem as suas ideias de negócio apoiando-se nas potencialidades da quinta.

Têm sido realizadas actividades para o público escolar, famílias, crianças, professores e público em geral, estando as oficinas disponíveis por marcação e as actividades divulgadas através do Plano de Actividades anual da QEM. Pelo segundo ano foram realizadas acções do Ciência Viva no Verão, Florestar Portugal, Festas da Primavera, do Outono e do Natal, Pirilampos na Noite, Criaturas das Trevas, sendo esta uma actividade de observação de animais de actividade nocturna, diversas formações em Agricultura Biológica e Biodinâmica, Curso de Apicultura, Hora do Conto, visionamento do documentário “Quem se importa” sobre empreendedorimo social, Eco-campos de férias para os mais novos, havendo a possibilidade de disponobilizar a mata e a casa para eventos e festas de aniversário. O público escolar, famílias e crianças podem escolher dentre diversas oficinassobre a biodiversidade aquática, fauna e flora, apicultura, agricultura, trilho pedestre e artes.



Projeto Pedagógico - atividades permanentes


Respondemos às necessidades dos professores e dos alunos, de investigadores ou da comunidade educativa, propondo "UM DIA NA QUINTA", onde todos poderão beneficiar de aprendizagens significativas e integradoras tendo como objetivos: apoiar atividades curriculares fora de portas; promover o gosto pela natureza; proporcionar atividades de agricultura biológica e permacultura; apoiar investigações sobre espécies autóctones e outras de interesse ecológico; facilitar oficinas de arte e ambiente; reabilitar espaços naturais.



Hortas pedagógica, familiares e comunitárias


Com o objectivo de aproximar os cidadãos da terra e possibilitar-lhes apreciar e valorizar o que produzem, dedicaram-se parcelas agrícolas à construção de uma Horta Mandala Pedagógia desenhada e iniciada por Henrique Bastos e à criação de hortas familiares, comunitárias e empresariais, ainda disponíveis para adoção, como forma de nos associarmos ao Ano Internacional da Agricultura Familiar em 2014 e ao Ano Internacional dos Solos em 2015. Pretende-se que os adotantes das hortas partilhem aprendizagens e sementes em conjunto.



Conhecer as Abelhas e Outros Insetos Polinizadores


O Apiário Pedagógico, instalado em colaboração com o apicultor profissional e formador Harald Hafner – A Abelha Azul foi inaugurado a 22 de fevereiro de 2014 e é dedicado a atividades de formação e divulgação para o público em geral, escolar e apicultores, ressalvando as ameaças actuais aos insetos polinizadores e como os ajudar, compreender a importância económica e ecológica destes insetos na nossa sobrevivênca alimentar, visto estes polinizarem cerca de 35% dos nossos alimentos e 70% das culturas agrícolas, para além das utilizações na nossa alimentação e saúde dos produtos da colmeia que produzem (mel, pólen, própolis, geleia real, cera e apitoxina).



Aulas na Natureza


Áreas Temáticas / Conteúdos: Educação Ambiental; biologia; hortas pedagógicas; desporto de natureza; linhas de água; charcos; artes; escrita criativa; atividades socioeconómicas


Breve descrição da atividade: Através de um percurso pela Quinta Ecológica da Moita estão previstas atividades como identificação de espécies, limpeza de trilhos no interior da Mata, manutenção da horta pedagógica, conjugando a aprendizagem e tarefas de intervenção numa perspetiva de educação para a cidadania. Os recantos da mata, simplesmente surpreendentes e espetaculares, estão preparados e adaptados para enquadrar aulas na natureza com possibilidade de abordagem de diferentes conteúdos curriculares das diferentes áreas disciplinares. De acordo com a duração da atividade será proposto um programa de Educação Ambiental integrando diferentes propostas, com base em tarefas, como por exemplo: oficinas de reutilização com materiais da Quinta; atividades na horta pedagógica; atividades de relaxamento em espaço natural (bambuzal); jogos lúdicos, sensoriais, de motricidade; visionamento de filmes com debate; visita a exposições; atividades experimentais e de investigação; expressões artísticas; atividades de lazer e recreio.



Há vida na água


Áreas Temáticas / Conteúdos: Recursos hídricos; biologia; ecologia; bioindicadores da qualidade da água; espécies dulçaquícolas; recuperação de linhas de água


Breve descrição da atividade: Percursos pelas linhas de água e charcos da QEM; atividades científicas, lúdicas e sensoriais; através de atividades de observação, investigação, manutenção e recuperação de linhas de água e charcos da QEM pretende-se sensibilizar e comprometer os grupos para a adoção de um troço de rio ou ribeira ou de um charco. Ao envolver-se neste projeto promove-se a curiosidade científica e experimental e estudam-se aspetos ecológicos, sociais, culturais, ambientais contribuindo para a melhoria e monitorização do espaço adotado.



À descoberta da mata com arte


Áreas Temáticas / Conteúdos: Reutilização criativa; ecologia; floresta


Breve descrição da atividade: A proposta da ação «À descoberta da mata com arte» pressupõe um programa de atividades que inclui a receção, uma visita orientada à Mata da Moita, recolha de elementos naturais e uma oficina de reutilização criativa sobre temas da floresta e da água (rios, ribeiras e charcos), com materiais reutilizados da Quinta e reciclagem.



Trilho de descoberta da mata


Áreas Temáticas / Conteúdos: Flora autóctone e exótica; fauna; floresta; ecologia


Breve descrição da atividade: Persurso pedestre circular de baixa dificuldade efectuado na Mata da Quinta Ecológica da Moita com passagem pelos charcos, horta pedagógica, floresta e apiário pedagógico com observação da fauna e flora, de acordo com a época do ano. Com esta atividade pretende-se apoiar atividades curriculares em contexto fora de portas e ajudar os alunos a conhecer a flora autóctone e exótica e a fauna autóctone; conhecer a importância da floresta autóctone; identificar utilizações no quotidiano para as espécies vegetais observadas; identificar indícios da fauna presente; executar jogos sensoriais; erradicar e controlar espécies exóticas invasoras; desenvolver projetos de investigação


A QEM é um jovem projeto em crescimento que vale a pena visitar e levar família e amigos e, já agora, colaborar como voluntário e contribuir para um crescimento e valorização mútuos. A sua localização é a seguinte: Quinta Ecológica da Moita, Rua da Misericórdia, Complexo Social da Santa Casa da Misericódia de Aveiro, Oliveirinha, 3810-860 Aveiro, sendo os pontos GPS: 40.615361N 8.606248W. A QEM pode ser contatada para o e-mail quintaecologicadamoita@aspea.orge as actividades seguidas no Facebook Quinta Ecológica da Moita.


Equipa de Coordenação da QEM:

Ana Jervis

Bernardo Conde

Joaquim Ramos Pinto


Recent Posts
Archive
Search By Tags
Follow Us
  • Facebook Basic Square
  • Google+ Basic Square
  • Facebook - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • Google+ - Black Circle
  • YouTube - Black Circle

© 2015 by QUINTA ECOLOGICA da MOITA